Policiais civis e militares impediram, nesta segunda-feira (12), a realização de uma festa de Dia das Crianças em Pedro Gomes, na região norte de Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações, a festa era organizada e financiada pela facção criminosa Comando Vermelho.
O trabalho teve início dias antes. A partir de troca de informações com as agências de inteligência, a polícia apurou que a facção planejava promover “ações sociais” no Dia das Crianças em três municípios do norte do estado: Sonora, Pedro Gomes e Coxim.
Levantamento prévio indicava data, horário e local do evento em Pedro Gomes: o campo de futebol do bairro São Luís, às 15h. Também identificou as organizadoras locais e uma liderança externa da facção, que mantinha contato direto com elas e com fornecedores. Segundo o levantamento, a contratação de brinquedos infláveis seria paga em dinheiro vivo, no próprio local, prática que dificulta o rastreamento da origem dos recursos.
Em Sonora, a ação policial já havia interrompido evento semelhante, com a prisão de duas mulheres e a apreensão de 200 brinquedos e doces. Com o padrão confirmado, os esforços se concentraram em Pedro Gomes.
No local foram encontradas duas mulheres montando uma estrutura de distribuição de alimentos. Questionadas, uma delas afirmou que organizava um evento para as crianças da comunidade, mas não apresentou qualquer autorização. No caso, a jovem já era conhecida das forças de segurança e havia sido citada em registro anterior por supostamente ameaçar vizinhos em nome da facção.
Verificou-se, ainda, que a prática era financiada pelos integrantes da organização criminosa, especialmente através das contas bancárias de uma segunda investigada, que também foi presa em flagrante por favorecimento ao domínio social estruturado, conforme a nova Lei nº 15.358/2026, que prevê pena de 12 a 20 anos de reclusão.
Segundo o relatório de investigação, parte dos aparelhos apreendidos demonstrava a participação nos grupos ligados à facção, com conversas fazendo referências diretas ao Comando Vermelho, um grupo dedicado às “finanças” do “projeto Dia das Crianças” e transferências via Pix entre as investigadas.
A pedido da autoridade policial, a Vigilância Sanitária municipal foi chamada para avaliar os alimentos apreendidos. A diretoria do órgão informou que não havia como atestar a segurança dos produtos, já que não se sabe em que condições de higiene foram preparados. Diante disso, o material foi considerado impróprio para consumo humano e levado para descarte de forma adequada.
O ponto reforça um aspecto pouco lembrado: além da finalidade criminosa, crianças receberiam alimentos de procedência desconhecida, preparados sem qualquer controle sanitário.
Segundo o relatório policial, as chamadas “ações sociais” promovidas por organizações criminosas fazem parte de uma estratégia deliberada. Ao distribuir benefícios e promover eventos comunitários, a facção tenta se apresentar como protetora da comunidade, criar laços de dependência e se legitimar diante dos moradores. Ao mesmo tempo, procura colocar o Estado e as forças de segurança como adversários da população.
Esse fenômeno é descrito como parte da chamada narcocultura, que busca naturalizar a presença das facções no dia a dia dos bairros e exaltar seus símbolos e lideranças. O resultado prático, segundo a investigação, é a formação de redes informais de proteção que desencorajam moradores a colaborar com a polícia e facilitam a continuidade das atividades criminosas.
As presas foram autuadas por integrarem e por favorecimento com organizações criminosas e a polícia pediu ao Poder Judiciário a decretação da prisão preventiva. Além disso, outras pessoas encontram-se investigadas por pertencerem ao grupo.